quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Futuro do País

De dia à procura de comida
a noite um lugar pra dormir
carrega no corpo feridas
e ainda consegue sorrir
dizem que o nosso país não vai mal
porque o povo ainda faz carnaval
mas os pequenos e mal amados
não compartilham da mesma visão
há tristeza no seu coração
vivem a margem do nosso país
assaltando e ferindo quem passa
tentam gritar do seu jeito infeliz
que o país os deixou na desgraça
são alvos de uma justiça que só sabe falar
será que a solução
é exterminar herodes não morreu
e hoje os dias estão piores
esterilização em massa e chacina de menores
eu queria somente lembrar
que milhões de crianças sem lar
são frutos do mal que floriu
num país que jamais repartiu
Pátria amada Brasil
Esse é o futuro do país,futuro do país
Pra poder comer eles te pedem dinheiro na rua
você vira as costas
e diz que a culpa não é sua
esse é o futuro do país
você pisa neles hoje amanhã é a sua vida que está por um triz
mas dar uma esmola não é a solução
eles precisam de cultura e boa alimentação
porque um povo sem cultura me dá insônia
qualquer dia desses
voltaremos a ser colônia pelas esquinas e praças estão
desleixados e até mal trapilhos
filhos bastardos da mesma nação
são crianças, porem não são filhos
mas eu queria somente lembrar
que milhões de crianças sem lar
são frutos de um mal que floriu
num país que jamais repartiu
Sempre no fim do ano fazemos planos para o futuro... devemos pensar um pouco menos individualmente. É isso que eu desejo em 2011, e pra sempre. Música de 1995, do sensacional disco Usuário.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O natal do guarda-redes Du!.


Trecho do texto publicado por Eduardo (pedro de) Lara em seu excelente blog La maison du pendu,em 27/12/2010:
"... Como texto de natal não há nada a ser escrito além do óbvio (alguém tem que dizer o óbvio) falemos dos presentes, das boas ações... Aliás, na semana que passou, fui se não outro personagem uma das menininhas de classe média que querem salvar o mundo. Andei distribuindo presentes que não eram meus para outrem. Eu poderia dizer que a felicidade de ver o sorriso em crianças pobres é gratificante. Poderia dizer que foi um momento de reflexão e de parar pra pensar em como tenho sorte por ter o que tenho, etc., etc.. No dia seguinte, estava almoçando numa churrascaria cuja carona foi dada por um sujeito que tem um Punto amarelo 1.8. Ouvíamos Madonna no percurso. (?) Mas voltemos às crianças pobres, (são mais interessantes que carros sport) pois elas estavam lá, recebendo presentes. Ficaram mesmo felizes. Isso é bom. Pra elas. A felicidade é tão somente dessas crianças. Entendem? Eu explico:

Meus amigos, tudo não passou de uma burocrata entrega. Digna de funcionário dos correios. Lá estão as crianças e cá estou eu, no trono da classe média católica. Não vai ser com bicicleta e Playstation que aquela criança vai ser salva. Não vai ser uma vez por ano que as desigualdades vão ser diminuídas. Ainda mais com presentes. Em suma, me senti o mais idiota dos Homens. Fui, entreguei e me mandei. Fui naquele dia a personificação da bondade capitalista. Agora vejam. Não há bondade no capitalismo. É tudo forma da manutenção do status quo.

O que fazer? Os idiotas católicos da objetividade poderão objetar: “Melhor do que nada.”"

Incrível e genial. Há tempos não vejo o Eduardo, nem trocamos feliz natal por msg de telefone...
Ps:. publiquei o texto sem autorização do du!, então se ele sumir de repente vocês já sabem o que ocorreu. Completo aqui.
Beijo a todos.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Até a pequena júlia sabe...

Papai Noel porco pichalista!
Mais uma de natal: We're a happy family (Ramones - 1977)
Só racho.
Graças a Deus natal só em 2011.

Jesus, muros, grades




Jesus foi o último homem bom a pisar na terra. Com seu exemplo ele conseguiu estabelecer uma nova lei, baseada no amor ao semelhante. Sem dúvida, a teoria revolucionária mais influente de todos os tempos em todo o mundo.
Comemoramos a chegada do aniversário de Jesus. Porém, nunca seguimos o exemplo maior que ele nos deixou.
Vivemos cercados de grades e muros. Cada um quer proteger o que é seu, a sua propriedade. Não nos importamos se na nossa rua tem um mendigo que passa fome ou se aquele muleque que pede trocado no sinal está se acabando no crack. Sequer enxergamos humanidade nestas pessoas, que parecem surgir por geração espontânea em cada esquina das cidades.
Não existe a possibilidade de amarmos verdadeiramente alguém que não consideramos dignos sequer do mínimo respeito como pessoa. Por isso, o mais importante é que construamos muros cada vez mais altos, com cercas cada vez mais cortantes, para que nos dê uma sensação de segurança.
Temos medo daquilo que criamos. Damos consentimento a toda situação grave de desigualdade social que vivemos no Brasil. Nada é absurdo, naturalizamos o abismo social como se fosse inevitável, como se não existisse outras possibilidades. Como disse Foucault, no Microfísica do Poder: "nada mudará na sociedade se os mecanismos de poder que funcionam fora, abaixo, ao lado dos aparelhos de Estado a um nível muito mais elementar, quotidiano, não forem modificados.” 
Nos separamos, assim, do mundo exterior. Construímos fortalezas que separam a nossa casa, onde está a nossa propriedade, do resto do mundo, público. Porém, mesmo dentro do nosso castelo existem santuários inacessíveis aos outros, como nosso quarto, cama, armários, gavetas, geladeira... mesmo aqueles que são nossos convidados, e podem dividir conosco o espaço feudal de nossas casas, por muitas vezes não tem acesso a estes locais. Não se entra no quarto do filho sem tocar na porta, nem se abre as gavetas dos pais ou do irmão sem pedir. O espaço, dentro da casa, é dividido em territórios, e pouca coisa é compartilhada por todos.
Construímos muralhas que separam a casa da rua, e barreiras que separam o nosso pedaço dentro da casa. Numa esfera mais íntima, estamos também preparados para nos defendermos uns dos outros. A competição, a ambição, a não satisfação incentivada por nosso regime consumista e nossos valores deturpados faz com que confiemos em poucas pessoas, ficando assim reféns do próprio medo. Os muros, barreiras e grades só não conseguem nos separar de uma vida assim, totalmente sem sentido.
Estamos sempre presos às convenções sociais: fomos condenados a nos comportar conforme regras estabelecidas muito antes do nosso nascimento. O amor é infinito, mas só é nos permitido amar sexualmente uma  pessoa. Temos livre arbítrio, mas não temos a liberdade de nos vestir ou ter a aparência que julgarmos mais adequada. A liberdade burguesa só pode ser aproveitada por quem tem saldo suficiente no banco.
Enfim, Ele faz 2010 anos hoje. Há 1977 anos foi crucificado. Dizem que ressucitou depois de três dias.
Hoje, matamos seu exemplo a cada dia, sem nenhuma chance de ressurreição. Ninguém se importa com nada que está além de um palmo do seu próprio nariz. Assim, comemoramos o aniversário de quem matamos todos os dias.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Top 3 de natal




Eu adoro o natal. É o período que a gente consegue perceber a humanidade que existe naquele mendigo que mora perto de nossas casas. É quando perguntamos àquela senhora que limpa o nosso prédio ou sala, se ela tem um netinho que gostaria de ganhar uma roupinha nova para passar o natal. É quando fazemos todo o esforço para confortar os corações revoltados, ou dar esperanças àqueles mais desfavorecidos. Enfim, seguindo o exemplo do aniversariante, nós comemos e bebemos até passar mal, mas com a consciência tranquila de já ter feito a nossa parte no natal.
O bizarro é que muitos dos que se sacrificam pelos outros no natal, chamam as políticas de distribuição de renda, como o bolsa família, de bolsa esmola, assistencialismo, ajuda para vagabundos entre outros. E votam nos partidos que só querem manter toda a injustiça social que vivemos até hoje (DEM, PSDB)... é como se o pobre tivesse que ser eternamente dependente da caridade para que aquele que ajuda possa se sentir menos entediado ou que tenha alguma consciência social.
Pensando nisso, resolvi fazer um especial de natal, com as músicas que tocariam na minha festa de natal.
Na terceira posição, uma música de 1996, dos Raimundos, do álbum Cesta Básica.
Infeliz Natal:
Não no natal, mas todos os dias: "na sua casa tem ceia, na casa dele não tem"...
Em segundo lugar, um clássico do punk nacional, dos Garotos Podres:
Papai Noel Filho da Puta (letra aqui)
Odeio esse velho ridículo. Quero amarrá-lo numa cama, encher de querosene e meter fogo (igual o muleque do facção queria fazer com a mãe). Rejeita os miseráveis. Aqui não existe natal.
Em primeiro lugar, uma música que nem fala diretamente do natal, mas que ilustra tudo o que eu sinto em relação à hipocrisia e consumismo que permeia esta data. O mais legal da canção é a fina ironia. Essa é mais desconhecida, de uma banda paulista que chamava-se Premeditando o Breque.
Balão Trágico (letra aqui)
Tem gente que acha que pobre tem realmente vida boa. O vídeo é retardado, mas ficou bom com a ironia da música, apesar que acho que não era essa a intenção do autor.
Enfim, acho que o papai noel ideal para o meu natal seria esse da imagem lá de cima, meu amigo Igor Vadia Nefer. Preto, feio, pinguço, bizarro e tarado. O retrato do natal capitalista.
(in)Feliz Natal.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Misère, sera le genre humain

Quanto mais tempo se passa, mais fica claro que os homo sapiens caminham para a total miséria e vivem na mais completa degenerescência. Miséria que me refiro não é (somente) a falta de recursos materiais para a sobrevivência, mas sim a falta de valores mínimos para que possamos viver em grupo.
Como já disse em um texto anterior, episódios como as agressões a homosexuais ocorridas em São Paulo, ilustram o que eu quero dizer: a sociedade cria seus próprios monstros, se forem pobres, são eliminados, se forem ricos, são praticamente absolvidos de crimes terríveis. Vide o que aconteceu com os playboys que queimaram o índio galdino.
A mãe de um dos agressores dos homosexuais de São Paulo deu uma entrevista dizendo que "isso era uma briga normal entre jovens". Claro, todos os dias alguém dá na cara de uma pessoa, sem motivo algum, com uma lâmpada fluorescente. É tão comum quanto jogar fogo num índio... Quem já fez cerol sabe o tanto que esse vidro é cortante...
Enfim, está chegando o natal. E eu odeio o natal, talvez um dia escreva sobre isso. Porém,  e adiantando o assunto, uma das coisas que eu mais odeio é a hipocrisia que reina no coração das pessoas nesta data, e como, de maneira geral, a população acaba vivendo as ilusões dos especiais de fim de ano da Globo.
A miséria parece um estado permanente, próprio da sociedade ocidental capitalista. E, num país sem educação, e que as leis só valem para a população que nunca teve direito a nada, esta condição parece extrapolar o que se pode considerar como minimamente saudável e atingir o imaginário social, transformando em corriqueiro aquilo de deveria chocar e causar comoção em mentes mais sensatas.
É como diz o Mano Brown, em Diário de um Detento "o ser humano é descartável no Brasil". Ou ainda "minha vida não tem tanto valor, quanto seu celular, seu computador". De fato, o brasileiro comum só tem valor de 2 em 2 anos, quando assume o papel de eleitor.
Por estas e outras que fico cada vez mais pessimista em relação ao destino que teremos.

sábado, 4 de dezembro de 2010

O Estado Charles Bronson




Charles Bronson talvez seja o maior matador de bandidos do cinema. Em seus filmes, ele ensina aquela velha lição: "bandido bom é bandido morto". Meliantes frente ao seu potente revólver não têm chances de escaparem com vida, como você pode conferir aqui e aqui.
Stallone, como Cobra talvez tenha vivido o diálogo mais clássico do cinema de ação: “Eu tenho uma bomba, vou explodir isso aqui!! – Vá em frente, eu não faço compra aqui”, “Você é uma doença, eu sou a cura”. Stallone atira. Já era mais um bandido.
Segundo Max Weber, o Estado é o detentor legítimo da violência. As caricaturas de policiais dos filmes que citei agem em nome da lei e da ordem, a qualquer custo. 
A violência do Estado, porém ultrapassa, e muito, tudo o que alguém, que não seja um doente considera como legítimo. Qual o direito que o Estado tem de acabar com a vida de um indivíduo?
Muito mais frequente e menos aparente que a violência  da polícia está a violência do Estado sobre uma população constantemente oprimida. Quantos morrem por ano em acidentes de trânsito? Assassinados por questões relacionadas ao tráfico de drogas? De fome? Por falta de atendimento médico de qualidade? Por falta de educação (isso também mata.)?
Para Stallone, a cura é possível enchendo-se o peito do bandido de balas de revólver. O Estado vai eliminando o que é indesejável, das formas mais cruéis e desumanas que se pode imaginar: sem educação, sem oportunidades, sem lazer, sem saúde... o Estado reserva apenas as balas para os setores mais pobres da população. E, isso é comemorado como a presença da ordem.
E, se Maquiavel estiver realmente certo, se é a sociedade que legitima o poder de uma entidade superior, cada um de nós, brasileiros, devemos nos sentir um pouco assassinos, um pouco Charles Bronson.

domingo, 28 de novembro de 2010

A estranha "anarquia" brasileira




O Estado é a maior ferramenta de dominação e privação da liberdade de toda a sociedade. Ao Estado pertence a vida de todos, já que em nome da "perfeita ordem", esta entidade pode matar ou prender qualquer um de nós. E, é claro que o Estado atende aos interesses de uma mínima parcela da população.
No Brasil, o Estado se omitiu em muitos momentos importantes da história. Procurou-se diminuir o seu peso em algumas áreas, que acabaram sendo deixadas à própria sorte.
Durante as décadas de 1960 e 1970, quando o maior problema do país era o êxodo rural, surgiram os grandes aglomerados urbanos sem nenhuma infra-estrutura, e que depois se tornariam as favelas que conhecemos atualmente.
Foram décadas de esquecimento destas partes da cidade. Sem a mínimas condições de moradia, sem comida, sem educação, sem lazer, sem água encanada e sem energia elétrica, os jovens nestas áreas cresceram assistindo seus pais trabalhando como burros e não obtendo nenhuma melhora de vida. Não é difícil imaginar o que aconteceu.
Atualmente, muitas destas grandes áreas estão dominadas por marginais. Pessoas que geralmente nunca tiveram nenhuma outra oportunidade de conseguir alguma coisa e que não vêem outras possibilidades a não ser entrar para o mundo do crime. Novamente, esta é só mais uma consequência da falta de educação.
No Brasil, tentou-se acabar com o Estado antes de se acabar com a propriedade privada. E o povo continua dando consentimento a esse tipo de política, visto a grande votação de Aécio Neves e Antônio Anastasia, em Minas Gerais. É triste, mas a nossa elite é muito bem informada e muito pouco educada. Ainda vota PSDB, DEM...
E, enquanto eu escrevo este tópico a polícia acaba de retomar o conjunto de favelas do Alemão, no Rio de Janeiro. Espero que o Estado se coloque nestas áreas de maneira efetiva, oferecendo à população opções de melhoria de vida e principalmente de boa educação.

domingo, 21 de novembro de 2010

A nossa grande geração perdida


A minha geração, nascida na década de 1980, assistiu ao surgimento e tentativa de aplicação das primeiras teorias que consideravam a reprovação escolar como a principal culpada pela alta taxa de evasão escolar. De fato considerar fatores socioeconômicos ou psicológicos dos alunos antes de simplesmente fazê-los repetir um ano de estudos foi um avanço. Porém, nada foi feito para se melhorar estas condições, a não ser obrigar as crianças a irem para uma escola altamente desinteressante e sucateada. Um fracasso, do qual fomos vítimas. Somos os filhos das gerações dos 1950 e 1960, que não tiveram educação.
Atualmente temos como consolidada a universalização escolar. Praticamente 100% das crianças em idade escolar estão realmente matriculadas em alguma escola. Um grande avanço.
Pouca coisa além disso porém foi feito. Mais do que um direito, a educação se tornou uma obrigação, e algumas vezes uma moeda de troca. E, por isso, a escola atualmente é apenas um depósito de crianças. Não se tem qualidade necessária para se proporcionar a oportunidade para que os indivíduos sejam realmente educados, e o máximo que acontece, em algumas escolas particulares, é o ensino do conteúdo. Estamos formando uma geração de pessoas bem informadas e muito pouco educadas.
Episódios como o ocorrido semana passada, quando jovens agrediram outros com lâmpadas fluorescentes ilustram o que eu quero dizer. Casos de violência gratuita como este, entre jovens, são comuns em todas as classes sociais, o que demonstra que o problema da falta de educação não é restrito.
Existe porém, uma violência muito sutil mas também muito devastadora, a qual estão expostos os jovens mais pobres: é não ter acesso a coisas básicas para a formação do ser humano, como lazer, esportes, música, literatura, cinema, entre outros. Sem melhores opções, ou as crianças vão para a rua, onde geralmente se tornam vítimas de bandidos (que geralmente são também vítimas), ou se trancam em casa vendo televisão, sendo bombardeados com reportagens como esta.
Para os editores do jornal da globo, é natural que uma pessoa nascida depois da década de 1990 tenha celular, notebook, televisão a cabo, video game, entre outros. Se um extraterrestre usasse esta reportagem como parâmetro de conhecimento do Brasil iria pensar que todos os sub-20 tem condições de possuir tais objetos, e usá-los todos ao mesmo tempo.
De fato, não é assim. Grande parte da população tem acesso apenas a um celular. O resto, que mostra na reportagem, faz parte do universo de uma mínima parcela da população. Muita gente não tem acesso nem a comida todos os dias, o que parece ser esquecido por pessoas que têm a visão tão deturpada quanto a da reportagem.
Segundo o Bernardo, o repórter fala da realidade dele, como se ela fosse natural. Isto é bastante compreensível.
A reportagem, porém não se apresenta com uma indicação: "se você tem renda menor que quatro salários mínimos per capita na sua casa não assista esta matéria". E é sobre esta violência que eu falo.
Imagino uma pessoa pobre assistindo a reportagem e se identificando com ela, pois tem menos de 20 anos também. Porém, ela não tem acesso nem à metade do que aparece na matéria. E, como na nossa sociedade cada um vale o que tem no bolso (ou no banco), e o desejo de consumir é universal, não é fácil não ter condições nem de tentar.
Como já disse, a televisão é a maior fonte de lazer e diversão das famílias pobres brasileiras. E ela  influencia  a moda, os comportamentos e o vocabulário das pessoas, principalmente as crianças. E estas estão expostas e vão crescendo assistindo o modo de vida retratado nas novelas, as roupas, os carros, as propagandas, entre outras coisas que provavelmente eles nunca terão oportunidade de ter ou usar.
E se o Leandro Menezes estiver correto, e "desejar o que não se pode ter é vício" mesmo, estamos assistindo o nascimento de uma geração de viciados. E, como todo viciado, eles farão de tudo para ter o que desejam. E descobriremos como esta geração já nasceu perdida.

domingo, 14 de novembro de 2010

Com quantos "brunos" se faz o Brasil?

Imaginem uma situação: na "periferia da periferia" de uma grande cidade brasileira, nasce uma criança. O pai desaparece, e a mãe o abandona. O menino cresce sendo criado pela avó, que com certeza já não dá mais conta de ser enérgica com uma criança como fora há 20 anos atrás com os próprios filhos. Apesar de ter sido, como disse, criado pela avó, aprendeu tudo o que sabe na rua, com amigos que provavelmente são tão ou mais pobres, tão ou mais abandonados que ele. Ia pra escola para ver os amigos e para comer a merenda, refeição mais completa do seu dia. Esta história é muito comum, eu mesmo já tive vários amigos que tinham uma vida parecida.
Um dia, este menino decide gastar seu único real para fazer uma aposta na Mega-Sena, com a esperança que só as crianças tem. E é sorteado, e consegue mudar a sua vida e a vida dos seus amigos, que continuam os mesmos de antes, da época de pobreza. E se torna poderoso, e vai ganhando cada vez mais dinheiro, e cada vez mais cheio de amigos, e claro, cercando-se de muitos aproveitadores.
Esta é a história do goleiro Bruno Fernandes, tirando-se a parte do bilhete premiado. Na verdade, ao invés de um jogo de loteria, ele tinha um talento incontestável para o futebol, o que lhe deu a única chance que teve na vida. E soube aproveitar a chance, se tornando goleiro do galo e depois do flamengo, sendo capitão do time campeão brasileiro de 2009.
Porém, sempre se envolve em polêmicas, e sua imagem está sempre associada às confusões envolvendo principalmente mulheres. Em 2010 foi preso acusado de um assassinato que teve todos os requintes de crueldade possíveis, segundo a polícia. Não quero falar aqui se é verdade ou não, se o goleiro é culpado ou não, dar detalhes do crime, etc...
Bruno ainda não foi julgado. Mas já foi condenado. O flamengo já disse que ele não volta ao gol rubro-negro, mesmo se for absolvido. Abandonou o seu atleta. Não conseguirá, provavelmente, nenhum time para jogar, se provar a sua inocência, e não sabe fazer outra coisa a não ser jogar futebol.
Como muitos outros, Bruno já nasceu condenado. Condenado ao abandono dos pais, abandono do Estado, sem educação. Existem milhares de brunos no Brasil, que não tem nem a chance de fracassar como o goleiro, pois não tiveram nenhuma chance de tentar.
A mulher, suposta vítima de Bruno, têm uma história parecida. Abandonada pelos pais, sozinha no mundo, conseguiu algumas chances de trabalhar utilizando o seu corpo, a sua beleza. Foi modelo, atriz, acompanhante, e viu a chance de alcançar seus 15 minutos de fama envolvendo-se com jogadores famosos. Assim como os brunos, não teve família nem outras chances de conquistar alguma coisa, ou alcançar um sonho.
A mídia, tão podre e desonesta como é de seu costume, faz da cobertura do caso um misto de circo de horrores com trem fantasma. Advogados, delegados, juízes, apresentadores, todos buscando o seu cantinho nos holofotes. O que menos importa é a vida dos acusados e da vítima, e sim qual a audiência será alcançada ao se inventar mais um furo, mais uma novidade, mais uma notícia bombástica sobre o caso.
Estamos construindo um país de brunos e elisas, não interessa se as crianças se chamam Josimar, Cristiano, Daniel, Flávia*... o nome é o que menos importa, para quem não é considerado, em momento nenhum como gente de verdade.
O ser humano é descartável no Brasil. O caso Bruno, assim como o ônibus 174, no Rio, assim como o carandiru, assim como o caso Nardoni, assim como o caso da menina presa com homens no Pará, assim como o caso da cadeia incendiada com gente dentro no interior de minas, assim como o caso da candelária, assim como o índio Galdino, assim como muitos outros casos de violência extrema só provam o que eu quero dizer. Enquanto existirem brunos no País, jamais teremos paz. Nem eles.

*são alguns brunos que eu conheci, que foram assassinados. Quando uma pessoa puxa o gatilho, não está sozinha. Toda a sociedade é co-responsável por qualquer morte violenta.

sábado, 6 de novembro de 2010

dez sensacionais discos

Finalmente, acabou a baixaria. O horário político parecia o programa do ratinho, na época em que mostrava o exame de DNA (eu adorava).
Dei uma olhada nos posts anteriores e achei que estava muito chato ficar falando de política, educação e desigualdade social. Por isso, pela primeira vez neste blog, falarei sobre música.
Vou tentar listar os dez discos que eu conheço que eu mais gosto, e tentar justificar as escolhas. Como toda lista, de cem, dez ou mil, nem todo mundo concordará. E não é pra concordar mesmo.
Outra: não sei nada de música, por isso volto a afirmar que são os dez melhores discos que eu conheço. Talvez daqui a um ano eu faça uma lista completamente diferente. Mas, aí vai:
The Beach Boys: Pet Sounds (1966)
Para mim e para Paul McCartney, o melhor de todos os tempos. Certamente renderá um tópico só pra ele daqui a um tempo.
Tropicália, ou panis et circenses (1968)
 Revolucionário, incrível e genial. Cada vez que escuto este disco,  sinto que nós estamos perdendo a capacidade de nos reinventar culturalmente, e reproduzindo a cultura da dominação...
Velvet Underground & Nico (1967)
Ícone do Indie de todos os tempos. As músicas tratam de temas como o uso de drogas e a cultura marginal. Ótimo.
Ramones: End of the Century (1980)

 Três notas, a simplicidade da música. Neste disco os Ramones parecem sintetizar todo o mal estar do final do século XX, antecipando o que seria da década perdida. Destaque para a sensacional Do You Remember Rock'n'Roll Radio?.
Pink Floyd: The Piper at the Gates of the Down (1967)
 Primeiro álbum do Pink Floyd, lançado em 1967, no auge da psicodelia do final dos anos 1960, antes da banda ser considerada como o ícone do rock progressivo, ganharem milhões de dólares com seus shows superproduzidos e antes do gênio maior Sid Barrett enlouquecer de vez.
A Sociedade da Grã Ordem Kavernista Apresenta a Sessão das Dez (1971)


Raul Seixas acabara de sair do interior da Bahia para o Rio de Janeiro, a convite de seu grande amigo Jerry Adriane. Trabalhava como produtor na gravadora CBS, e diz a lenda que ele, e os outros três integrantes da Sociedade (Sérgio Sampaio, Myriam Batucada e Edy Star) aproveitaram que o diretor da gravadora tinha viajado e gravaram o disco em uma madrugada.
Verdade ou não, as músicas cantam a desilusão da cidade grande, e o impacto dos costumes urbanos em pessoas vindas do interior, principalmente dos sertões. Vale lembrar que até a década de 1990, um dos maiores problemas do Brasil era o êxodo rural, e as grandes favelas, como a rocinha, ou heliópolis, tem por volta de 70% de sua população composta de nordestinos ou descendentes de nordestinos.
The Clash: London Calling (1979)
Uma das capas mais incríveis de todos os tempos, e que demonstra todo o espírito do punk, combatendo a decadente sociedade inglesa da época. A banda transita entre vários estilos no mesmo disco, desde o ska, ao reggae e até punk de três notas.
Caetano Veloso (1969)




Só digo uma coisa: neste disco está a música com a qual batizei o blog. Alfomega.
Os Paralamas do Sucesso: Selvagem? (1984)
 Uma das capas mais legais do rock brasileiro. Assim como o the Clash, gosto dos Paralamas porque em um mesmo disco conseguem fazer muitos estilos. E, neste disco está a música Teerã, que batiza um dos posts passados deste blog.
Racionais mc's: Sobrevivendo no Inferno (1997)
Segundo Caetano Veloso, o melhor disco brasileiro dos anos 1990. De fato, músicas como Capítulo 4, Versículo3, ou Qual Mentira Vou Acreditar?, são tapas na cara da sociedade conservadora brasileira da época de FHC.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Special Edition: the Revolution is Comming!




Primeiro: Um operário, sem curso superior, retirante de pernambuco, favelado em Santos, favelado em São Bernardo do Campo, sindicalista, se torna  o melhor presidente que o Brasil já teve, permanecendo oito anos no poder, de 2002 a 2010. A esperança venceu o medo.
Segundo: Uma mulher, pupila, seguidora e braço direito do presidente, é escolhida pelo POVO para sucedê-lo. A esperança já tinha vencido o medo. Era a hora de vencer outros desafios, como o machismo e o fanatismo religioso, por exemplo.

Fato é que o povo já conhece os dois projetos de país que se colocaram nestas eleições. A direita, que esteve no poder durante a ditadura e voltou com FHC de 1994 a 2002, e o projeto voltado para políticas sociais, desenvolvido pelo presidente Lula e seus ministros. Foram quase 13% de diferença total de votos entre Dilma e Serra, ou entre os projetos diferentes de Brasil. A esperança de 2002 se tornou certeza e tomou forma. Já não se quer mais para o Brasil aquela velha doutrina de se fazer o bolo crescer para depois se dividir. O bolo, que sempre foi grande, começa, muito vagarosamente, a ser dividido, através de programas sociais, de importância reconhecida internacionalmente.
Infelizmente, o Estado continua refém dos banqueiros, latifundiários e grandes capitalistas. Por isso não votei em Dilma no primeiro turno, por não concordar com importantes programas, como a transposição do Rio São Francisco ou a construção de milhões de casas pelo Minha Casa, Minha Vida, projetos que vêm beneficiando sistematicamente as grandes empreiteiras... por que não se criar um mecanismo para se acabar com a especulação imobiliária, e colocar os pobres para morar em imóveis vazios, usados para essa prática tão prejudicial?
Não vivo no século XIX, como o pessoal do PCB. Apesar da imagem escolhida para ilustrar o post, sei que a revolta armada só pioraria os problemas que temos aqui. Mas considero que, apesar de lentamente, as coisas vêm acontecendo, e o Brasil está se tornando um país melhor para todos (o que incomoda uma pequena parcela da população, que habitava o paraíso brasileiro sozinha). Mais do que chegando, a revolução está acontecendo...
Em tempo, ainda bem que o Brasil não é Belo Horizonte. Aqui, Serra venceu Dilma por uma margem de 11.000 votos, mais ou menos. É hora do PT mineiro voltar a se unir e pensar como reestabelecer as suas grandes vitórias na Tancredópolis, como diria meu amigo Néfer.
Em tempo, again. Aécio Mrs. Bean Neves, o grande DERROTADO destas eleições. "Pow, você tá louco falando isso, o Aécio se elegeu com 70% dos votos, elegeu o Itamar, elegeu o Eliseu Resende, elegeu o Anastasia, o que você fumou pra falar que ele foi derrotado???"
Todos sabemos da megalomania do nosso querido senador. Quer ser presidente. Quando percebeu que não ia ser escolhido como candidato a presidência pelo PSDB, teve a grandeza de abrir mão das prévias e se candidatar a senador. Com vitória garantida, bastou fazer campanha para seus aliados, Itamar e Anastasia.
Aécio, sabendo que o senado é a casa da direita no Brasil, não esperava que dessa vez não seria assim. Isto porque, dos 81 senadores, 57 estarão com Dilma. As pretensões de ser presidente do senado, desta maneira, foram frustradas. Chupa, Aécio.
Mesmo com seus "aliados" do PSDB, Aécio está queimado. Foi notório o corpo mole que ele fez na campanha de Serra em Minas Gerais. Tanto que, aqui, Dilma obteve quase 60% dos votos, uma vitória humilhante. Certamente, os paulistas poderosos, como o também senador eleito Aloysio Nunes (PSDB-SP) vão isolar nosso garoto de Ipanema durante, pelo menos os quatro anos de governo Dilma, e, se o PT continuar no poder, serão, certamente, oito anos do mais completo ostracismo de Aecinho no congresso. Que la sigan chupando.
Estou feliz. Amanhã, voltarei a falar mal do PT.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O melhor argumento para se votar em José Serra



Hoje, na sexta série, o meu aluno Douglas (incrivelmente inteligente) me deu o melhor argumento que alguém pode ter para se votar em José Serra:
"_Vou torcer pro Serra ganhar.
Ele vai acabar com o bolsa família
e eu não vou mais precisar vir pra escola".
Quase que ele me convence.

sábado, 16 de outubro de 2010

Eu tenho medo

Este é o post que eu menos queria escrever. Queria falar sobre outras coisas, mas não pude evitar...
Ontem foi dia do professor. Nenhum abraço ou aperto de mão especial por esse dia. Ao contrário, no dia dos professores foi divulgada uma pesquisa que comprova: "magistério tem dificuldades para atrair jovens talentos para a carreira." Você poder ler na íntegra aqui ou aqui. Resumindo, me senti abaixo da linha do lixo. Isto porque não sou talentoso pra ser outra coisa, tipo médico ou engenheiro, e por falta de opção e de inteligência sobrou pra mim dar aula. Prefiro acreditar que sou burro por escolha, e não de nascença...
Como disse, não queria escrever sobre isso, nem sobre as eleições. Não votei na Dilma do primeiro turno (Plínio est roi). Não queria me posicionar aqui sobre o segundo turno, queria apenas chegar no dia 31, apertar 13 e pronto. Porém, com o clima eleitoral do jeito que tá, não deu pra evitar[2].
Quem não se lembra daquele videozinho ridículo da Regina Duarte falando que tinha medo se o Lula ganhasse a eleição em 2002 acabasse com a democracia e talz. Se você não se lembra, pode conferir aqui. Muito mais engraçado que zorra total.
Parodiando o vídeo, quero dizer que também tenho medo. Tenho medo de ver de novo o ARENA/UDN/PFL/DEM no poder de novo. Só gente boa, estilo Ronaldo Caiado, Eliseu Resende e a família Magalhães, na Bahia. Sim, um partido de idéias novas se constrói com pessoas jovens.
Tenho medo de ver o choque de gestão em nível federal. A péssima tecnocracia do governo de Minas  aplicada nacionalmente.
Tenho medo da volta do desemprego, principalmente nas camadas mais pobres da população. Se você acha que pobre não tem emprego porque não procura, e que o melhor é deixá-los morrer de fome, vote 45.
Tenho medo da privatização da petrobrás, do pré-sal e, principalmente das escolas federais, tanto de ensino médio (cefet) quanto superior (ufmg). O que o ministro Haddad fez pela educação em sua administração, tanto em Minas quanto no Brasil é digno de prêmios internacionais. O mais bizarro é ver gente da minha sala, na graduação da Antropologia (curso criado pelo Reuni - Haddad/Lula) dizer que vai votar no Serra. 
Tenho medo da volta da lógica sucateia-vende dos governos liberais. Não se investe nas instituições, depois diz que só dão prejuízo e resolvem vendê-las a preço de banana. Foi assim com a Vale, por exemplo. Certamente, o próximo alvo das privatizações serão as instituições federais de ensino, que serão vendidas com a desculpa de se investir o dinheiro na educação básica. E o pobre voltará a não ter acesso aos cursos superiores, seguindo exemplos de países ultra desenvolvidos como o Chile.
Tenho medo de o Estado ser administrado como empresa. O Estado não deve ser mínimo, como pregam os liberais, e sim investir em distribuição de renda e em proporcionar a todos condições para exercer sua cidadania de maneira plena.
Não era essa a escolha que eu queria fazer. Mas, comparando-se os oito anos de governo FHC com os oito do governo Lula, fica fácil decidir qual projeto é melhor para a maioria da população brasileira. Se você é um paulista, metido a besta e riquinho, está no seu direito de votar em Serra. Mas, se você é mineiro, não é dono de mineradora ou de um banco, e vota Serra, tenho medo de você também.
Em tempo, parabéns a todos os professores. Somos marginais, somos heróis!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Made in Tehran, ou Teerã é aqui!

Um dos melhores discos lançados em todos os tempos de música brasileira é Selvagem?, de 1986, dos Paralamas do Sucesso. Entre as canções deste álbum estão grandes sucessos, como Alagados (que é sensacional) e Você.
Existe, porém, uma música quase desconhecida neste álbum, que se chama Teerã. Segundo o próprio Herbert Vianna, essa música traça um paralelo entre as crianças vítimas da guerra no Irã (que na época estava no seu auge de violência) e as crianças vítimas da desigualdade social no Brasil. Aqui quase nada mudou.
A música começa com os versos:
"Por quanto tempo ainda vamos ver
fotografias pela manhã
imagens de dor
lições do passado
recentes demais pra se esquecer "
Coincidentemente, estive essa semana em uma excursão com meus alunos da 8a série, na redação do jornal "o Tempo", o mesmo que faz o primeiro tablóide sensacionalista de Belo Horizonte e jornal mais vendido do Brasil, o famigerado "Super Notícia". De fato o Super revolucionou o mercado jornaleiro de Minas, e muita gente que antes não lia nenhuma linha, hoje já lê o noticiário policial e a página de esportes desse jornal, o que é um grande avanço.
Quem acompanhou a excursão foi uma mocinha muito simpática, funcionária do marketing da empresa. Quando ela estava acabando de falar aquelas generalidades à respeito do jornal, não resisti e a perguntei se era possível, se eu quisesse difamar alguém, comprar uma reportagem no jornal. Pensei que ela negaria  (na cara de pau) que isso acontecesse. Não negou. E disse ainda mais, que "se tem um escândalo contra um grande anunciante, pode ser que essa matéria não saia no jornal, ou se for inevitável, vamos 'pegar leve'".
Coincidentemente, de novo, hoje, na propaganda de José Serra na televisão, ele disse "no meu governo, não vamos ser amigos de governos que apedrejam mulheres e controlam a imprensa". Sim, a imprensa pode ser controlada por anunciantes, grupos políticos ou quem tenha grana pra poder comprar uma reportagem, mas não deve sofrer nenhum controle por parte do Estado. Não que eu ache que a imprensa deva ser imparcial (nunca serão), mas é preciso deixar de lado essa tentativa de iludir a população. Isto é liberdade de imprensa, ou de expressão? Nem aqui, nem em Teerã.
Uma outra coisa me chamou a atenção: a exposição das pessoas nas capas de jornal. Tanto na imagem acima, quanto na que está aqui do lado, banaliza-se de forma irresponsável casos da vida íntima das pessoas. Uma aluna me contou a seguinte história: "quando mataram meu primo, com 16 tiros, ele saiu na capa do super. Minha avó comprou o jornal no outro dia e foi chorando pra casa". Esquecem-se que, antes de tragédias ou escândalos, existem seres humanos. Não se respeita a memória daquele que morreu, e esquecem que estes anônimos são pais, filhos, irmãos, amigos...
Sim, amigos, vamos pegar leve com os grandes anunciantes e empresários. O povo, que não tem dono, que se foda com suas misérias. Mas, voltemos a Teerã.
Mais adiante, Herbert Vianna pergunta:
"E o futuro o que trará
para as crianças em Teerã?
brincar de soldados, 
por entre os escombros.
Os corpos deitados
não fingem mais".
Versos Sensacionais, de uma sutileza digna de Caetano Veloso. Qual de nós nunca brincou de soldados, ou ainda de vivo-morto?
Na segunda parte da música, trata-se da realidade das crianças brasileiras:

"Por quanto tempo ainda vamos ter
nas noites frias e nas manhãs
imagens de dor
                                                                                  em rostos marcados
pequenos demais pra se defender.

E o futuro o que trará?
Se estas crianças vão sempre estar
pedindo trocados, os vidros fechados
sentados no asfalto sem perceber"...
A infância em um país em guerra é desolada. Em um país como o Brasil, onde impera a desigualdade congênita, a situação não me parece muito diferente. Nossas crianças estão perdidas tais como as de Teerã, ou as de Cabul, ou as do Haiti.
Não temos liberdade de imprensa, e a próxima geração de adultos está gravemente prejudicada, pela falta de educação de qualidade e por todas as mazelas fruto da desigualdade social brasileira. "Será que ainda existe razão pra viver em Teerã?"

sábado, 2 de outubro de 2010

A lei "ficha limpa" e a educação no Brasil

Já tinha adiantado em outro post que o sistema eleitoral brasileiro é bizarro. Democracia sem educação é entregar o país aos interesses dos bancários, industriais, latifundiários e grandes capitalistas em geral (rouge mode on). Teremos no congresso, Tiririca e Aécio Neves. Isso não é bom, na minha opinião.
Não é sobre isso que eu quero falar. Esta semana foi discutido se a tal lei ficha limpa deveria valer para estas eleições ou só para as próximas. Por mim, não se aprovava nenhuma lei desta natureza antes de se investir pesadamente em educação.
Não há problema em pessoas condenados pelos mais diversos crimes se candidatarem. O problema é se estas pessoas conseguirem ser eleitos.
A lei ficha limpa considera que o povo é suficientemente burro para eleger candidatos de má índole. E realmente o é. Porém, não é culpa do povo, mas sim de uma falta total de investimentos em educação de qualidade, para a formação da cidadania crítica, necessária para o perfeito exercício da democracia. Duvido que se o povo fosse minimamente instruído, o sr. Aécio Neves seria eleito senador.
Proibir-se que certas pessoas se candidatem por ser condenados, é tapar o sol com a peneira. É muito mais fácil elaborar uma lei desta natureza do que revolucionar a educação. É como se dissessem "cansamos de vocês (povo) votarem em ladrões. Porém, ao invés de darmos condições para vocês pensarem melhor seu papel de cidadão, vamos simplesmente proibir estas pessoas de se condidatarem".
Só teremos democracia se conseguirmos liberdade. Liberdade só teremos com educação. Tapar o sol com a peneira não é o melhor caminho.

sábado, 11 de setembro de 2010

Tiririca Lessons

Vivemos um regime político interessante. Eu o chamo de "democracia sem educação". Do que adianta o direito do voto se as eleições só servem para referendar a vitória dos grupos dominantes? Somente com educação é que poderemos mudar o país de verdade.

Enquanto não mudamos, me pergunto qual o papel da esquerda no Brasil. Como me disse um cara do PSTU uma vez, "acho que o partido não deve participar de eleições burguesas!". Como chegar ao poder, então? Somente a revolução armada poderia colocar a extrema esquerda autoritária em qualquer cargo político. O PCB se diz "o partido do século XXI", eu completaria a frase com "usando a doutrina do século XIX".
Não sou da esquerda autoritária, porém gostaria sim de ver algumas medidas propostas por eles em ação. Em nossa democracia sem educação, para se chegar a algum cargo político, não se deve fazer propostas sérias, muito menos tão mal humoradas como as dos partidos vermelhos. Temos três opções: ou esperamos uns 200 anos até a educação no Brasil chegar a um bom nível, e as pessoas votarem com maior responsabilidade, ou fazemos a revolução armada (isso está out!), ou aprendemos a fazer campanha com o Tiririca, que imagino ser um dos deputados mais votados do Brasil este ano.
Reparem no que eu estou falando, compare a campanha de Tiririca com a do PCB:
Tiririca:
http://www.youtube.com/watch?v=pXuV_l0FiVQ
PCB:
http://www.youtube.com/watch#!v=amlsdLhX99I&feature=related
Considero tanto o voto em Tiririca quanto o voto no PCB como um protesto. Somente a partir do momento em que se aceitar partir de onde estamos para mudar o mundo, é que realmente conseguiremos justiça social.
ps:. vou cantar o hino da internacional para os meus filhos dormirem.

sábado, 4 de setembro de 2010

O Estado do ditador Mrs. Bean


Se você é burro o suficiente para viver repetindo expressões como "bolsa esmola", ou "o pobre também não corre atrás", é melhor não perder tempo lendo este post e ir ler a veja desta semana. O estado de Minas Gerais vive a pior fase política de todos os tempos, os candidatos são péssimos. O pior de tudo é assistir ao referendo que será dado nas urnas ao governo Mrs. Bean, que tanto prejudicou nosso Estado. As propagandas de "realizações" do mandato passado são bizonhas, e tão frágeis que qualquer um que tenha um QI maior que 0,0001 consegue atacá-las:
1: Construção da Linha Verde:
Só quem não conhece outros lugares no Brasil para achar que só isso vale um voto. No Rio de Janeiro existem vias expressas muito maiores e mais úteis ao geral da população que esta falácia. Só que eu conheço, tem a linha amarela, a linha vermelha, a av. Brasil, a estrada Lagoa-Barra. Outra: Em São Paulo, existem pelo menos 40 vias expressas dessas. A maioria delas construídas por Paulo Maluf. E, quando vimos nas últimas eleições que Maluf foi o deputado federal mais votado do Brasil, chamamos os paulistas de idiotas. E o pior, os acusamos de prejudicar o país, elegendo um político com aquela biografia. Hoje, mais de 70% da população votaria em Mrs. Bean para senador.
2: construção do centro administrativo:
Obra faraônica, estilo da ditadura militar ou a Brasília de JK (gasta-se um saco de cimento, marca-se cinco). É muito bom que se tenha todas as secretarias no mesmo lugar, mas precisava ser um projeto de Niemeyer? Porque não contratar os engenheiros que fazem os apartamentos do vila viva, para economizar também a grana do Estado?
O projeto foi feito para que a construção acontecesse onde hoje está o aeroporto Carlos Prates. Como o trânsito naquela região da praça São Vicente é um inferno, decidiram construir em outro lugar, ao invés de realizar uma obra que melhorasse a vida da população da regional noroeste. Outro motivo para a mudança de local foi a "revitalização" do aeroporto Tancredo Neves. Pra quem chega de avião a Belo Horizonte, a cidade é linda. Pra quem é pobre e vem de balaio, a guaicurus é a melhor opção.
Enfim, decidiram mudar o lugar do Centro Administrativo para o Serra Verde. Ao invés de se aproveitar o primeiro projeto, que também era de Niemeyer, encomendou-se outro, ao mesmo gênio. Pagou-se duas vezes pelo mesmo projeto. Isso é Choque de Gestão!
3 - Choque de Gestão:
Pelo amor de Deus, isso pra mim é a pior. A teoria do Estado Mínimo caiu em 1929. Então porque diminuir os investimentos do Estado? Cortou-se na própria carne. Mas, na carne de quem?
Os investimentos em saúde, segurança pública e educação caíram de R$ 11,6 bilhões para R$ 8,7 bilhões, impactando a vida de milhares de pessoas na capital e no interior do estado. Enquanto isso, os gastos com publicidade foram, em 2005, 570% maiores que o previsto. Goebbels faz escola.
O Estado não é uma empresa. O Estado deve gastar seu dinheiro com o povo, e isso certamente não dará lucro. Para cobrir este "prejuízo", deve-se cobrar altos impostos de quem pode pagar. Quanto a Vale paga de imposto para destruir Itabira? NADA!, para ficar só no exemplo dado por Carlos Drummond. Como detalhe, as grandes construtoras e mineradoras pagam a campanha de Bean e seu capacho tia Anastácia. Em troco do quê?
4 - Educação:
O melhor salário de professor das redes estaduais no Brasil é R$2234,38, por 40h semanais. Minas Gerais é o 18o no ranking, com R$1416,66, pelas mesmas 40h. Um detalhe: O melhor salário de professor no Brasil é no estado do ACRE. Eu sei que o Acre é a Suiça brasileira, que é um lugar de grandes riquezas e distribuição de renda, que não existem pobres no Acre, e por isso compará-lo com o pobre estado de Minas é covardia. A solução seria mudar pra lá, então.
Foi preciso uma greve de quase dois meses (greve que foi criminalizada), para que se conseguisse alguma melhora. Mas, concurso que é bom, nada. A maioria dos professores do Estado estão tão desmotivados que preferem ir colher enxofre na boca do vulcão, na Indonésia a entrar pra sala de aula.
5 - Liberdade de Imprensa:
Quem me conhece sabe a antipatia que eu tenho da imprensa, e da sua pretensa liberdade. A imprensa não vai ser imparcial em nenhum lugar do mundo, nem aqui, nem na China (rá, rá, rá).
Não tem problema nenhum um jornal tomar partido de algum político. O que não pode é se dizer isento, ou ainda o Estado interferir naqueles órgãos de imprensa que não são seus aliados. E, é isso que vem acontecendo. Mrs. Bean mandou o Kajuru embora da Bandeirantes, no ar, ao vivo, porque o jornalista mostrou que os convidados do governador entravam sem parar no mineirão antes da partida contra a argentina, e o povão mineiro estava na fila debaixo do sol de meio dia.
Todo mundo sabe. Quem vota em Maluf é burro. Aqui, os espertos votam Mrs. Bean. Prefiro o Tiririca.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Somos Neferlands!


Mais uma vez caímos nas semi-finais. Porém, posso dizer que foi uma zebra. Depois de uma primeira fase incrível, com quatro vitórias, duas de virada com dois gols sensacionais de Jô-ão, caímos. Fizemos o melhor jogo do campeonato contra os que se sagraram campeões, os marombas, e vencemos. Perdemos um jogo que estava em nossas mãos contra o Nabucão, de virada.
Talvez os desfalques nos tiraram a chance de disputar o título. Ricardo Jota, não pode ir. O talismã João já partiu para a terrinha, Celso Ibaiano tinha compromisso... porém, sentimos mais falta de um goleiro. Eduardo, que segundo Rafael Leite de Minhaca era o melhor guarda metas do campeonato, em um lance tranquilo, torceu o pé direito e teve uma gravíssima contusão. Vai ser operado amanhã (força du!).
Nosso time é o que mais briga, o que mais comemora, o que mais xinga, o mais intenso da competição. Segundo Eduardo, somos iguais aqueles times da venezuela na libertadores, oriente petrolero, carabobo... somos neferlands.
Para o ano que vem, já garanti a contratação de um grande reforço para o lugar do nosso capitão Wallison. Rafael leite de Minhaca, um experiente jogador. VAleu du, pelas defesas e comentários! Wallison pelo esforço! Celso, por sua presença! João, pelos gols decisivos! Alexis, por ser o cara mais precioso da fafich! Celão pela vontade! July, pelo espírito de equipe! Jota, por ter reforçado o primeiro dia! Guilherme, pela técnica apurada e as bombas de canhota!
Somos Neferlands.

sábado, 21 de agosto de 2010

"Se um dia eu ser professor"...


Essa semana foi bastante importante simbolicamente para mim. Quarta feira, dia 18/8 eu completei meu primeiro ano de sala de aula. Apesar de todos os problemas, na escola acontecem coisas que não há dinheiro que pague (deve ser por isso que ganhamos pouco).
Dia 19/8 é dia do historiador. Não tenho idéia porque foi escolhido justamente este dia, e estou com preguiça de recorrer ao google. Se alguém quiser explicar nos comments, eu agradeço. Fato é que temos um dia, mas não temos uma profissão regulamentada. Preferia que fosse o contrário.
Sexta-feira, última aula da semana, cinco minutos antes da saída, 6a série. Um menino, que assumidamente acaba de tomar um posto de maior prestígio na boca do bairro, me chama no fundo da sala, e vem com a seguinte conversa:
"_Nó fessô, sê professor deve sê foda, né?"
"_Por que S...?"
"_Guentá esses muleque chato, se um dia eu ser professor eles ia ver".
Tocou o sinal, todos foram embora. E eu realmente também não tinha nada a dizer. Senti que S. admira a profissão dos professores, já que na hora que nos chama fala "fessô" mas quando fala da profissão não erra. Realmente não sei o que fazer numa situação dessas. Daqui a três, quatro anos, provavelmente ele estará ou preso ou morto. Sabemos que não é fácil sobreviver no crime, e este blog não é novela da globo pra ficarmos no mundo das ilusões.
Apesar disso, ele considera a possibilidade de mudança. E, ser professor, apesar de não ser seu grande sonho seria uma forma de ter uma profissão legal e reconhecida. O seu sonho é sair da vida do crime. Não é uma questão de escolha, ou uma questão genética. Quando se tem 13 anos seus olhos estão fechados pra realidade. Conheço gente que com 30 anos, curso superior, boa família e grana que ainda não sabe o que quer na vida.
Não há determinismo. Nós, como um todo, somos cruéis com estas crianças. Somos cruéis quando votamos no pfl, quando jogamos um prato de comida no lixo, fumamos um baseado ou quando simplesmente não as ouvimos. Não há como recuperar a sociedade sem parar de contribuir para a manutenção desta realidade. "Enquanto não distribuírmos o pão, não teremos paz", frase perfeita do jornalista Eduardo Costa, da Itatiaia, um dos poucos que paro pra escutar.
E sim, para quem ainda quer saber: ser professor é foda!

sábado, 15 de maio de 2010

terça-feira, 27 de abril de 2010

"Nothing is as big as your first love"


Desde quando vi o filme "Little Manhattan" venho tendo lembranças do meu "primeiro amor". Não da menina em si, mas do sentimento que eu tinha por ela... antes de falar sobre isso, vou descrever brevemente a história do filme, pra quem não tem globo em casa: um menino, por volta dos 11 anos de idade se apaixona por uma colega da aula de karatê. Só que ela vai para um acampamento de férias em poucos dias, e depois se mudará de escola, e então eles nunca mais se verão. Desta forma, ele tem apenas uma semana para tentar evitar esta tragédia.
Voltando ao assunto, venho lembrando daquele sentimento desinteressado, descompromissado e de certa forma ingênuo que tinha. Era bom se sentir assim, amar sem ter que pensar em nada, só em guardar segredo. Sexo era pra adulto, e eu só pensava em ficar com ela o maior tempo possível, queria ter filhos, trabalhar e ficar com ela minha vida toda.Beijei-a apenas uma vez, já com treze anos. Mas gostava dela desde os onze. Não foi lindo, porque 20 minutos antes ela tinha beijado um amigo meu, e eu não sabia.
Sim, eu me tornaria um superorgânico, com uma imensa força plástica, para ficar com ela. Era uma menina linda, um pouco mais velha que eu... era branquinha, tinha os cabelos pretos, levemente cacheados, algumas sardas, magrinha. Acho que ela também gostava de mim, mas nunca acho que sou digno de ser amado por ninguém, e por isso, nunca disse a ela o que eu verdadeiramente sentia.
Aos 14 anos, meus pais se separaram, e eu mudei de casa, de escola, de vida. Já não a amava mais, tive várias(?) experiências com outras meninas.
Hoje, inesperadamente, a encontrei. São quase dez anos sem nos vermos. Elle travaille dans un supermarché, diria eu na aula de fraçais. Ela quase não mudou. Quando me viu, exclamou tão surpresa que me deixou constrangido: "_Nossa, mas você virou um homão"! Meus amigos mais antigos, que me conheceram pequeno, têm dificuldades em perceber que eu já não sou mais aquele menino. Me tratam como um irmão mais novo, até hoje. Os amo muito muito, mas falarei sobre eles em um outro post.
Perguntei sobre sua mãe, sobre o seu irmão, o meu eterno ex-futuro cunhado. Nos abraçamos e me lembrei de repente como sonhava estar entre aqueles braços...
São raros os casos em que as pessoas se casam com seu primeiro amor. Eu conheço apenas um caso, de um cara que fez o jardim comigo, e se casou com a mesma menina que ele namorava aos nove. Muito legal.
Hoje, amo a Ana e tenho tantos sonhos com ela, e vejo esses sonhos se realizarem. E, a cada realização que temos juntos, a cada dia que acordo ao seu lado, a cada vez que escuto baby, I love you, dos Ramones ou a cada vez que tenho que recolher uma tranqueira velha que ela usou e deixou jogada, eu a amo mais e mais.
Esta é a função do primeiro amor: uma época de mudanças e nunca nada será como antes. Sua vida muda, você, irracionalmente, não se cansa de pensar mais em outra pessoa que em si mesmo. Nada é tão grande quanto o seu primeiro amor.

ps:. néfer, não sou gay.
ps again:. Ana, não fique com ciúmes... se quiser pode ficar bravinha. Eu te amo!