quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O Grito


Edvard Munch pintou minha alma hoje.
Em 1893.
Não posso resolver meus problemas.
Nem pensar nos problemas do mundo.
Por isso o prolongado silêncio do blog.
Quando encontrar a porta, voltarei a escrever.
Por enquanto basta dizer que viver não é preciso.
E meu espírito grita, e nem mesmo eu escuto.
Não sei mais quem eu sou, e o pior:
não sei o que quero ser.
Perdido.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

vivere non est necesse


Viver é arriscar-se. 
Nunca se sabe o que vai acontecer. O futuro, assim como o coração dos outros, é terra aonde ninguém vai, que ninguém conhece. 
Planejar ou imaginar o futuro, e trabalhar para que aconteça o que queremos é uma coisa saudável. Anestesiar-se para o mundo, deixar de sentir o que está acontecendo colocando-se esta escolha como racional não. Isso é ter medo de si próprio. 
Negar-se, não se entregar a si mesmo. Isso é o verdadeiro anti-amor.
Não entendo como várias pessoas que eu amo não conseguem viver porque pensam demais. Como diz uma obra de arte do banheiro da FAFICH (na psicologia): "entre você e a cômoda do seu quarto há tanto conceito que você nem a sente".
Ter medo da tristeza, das dificuldades, das frustrações ou das decepções nos fazem perder grandes momentos felizes
Se há pouco tempo atrás eu pudesse colocar toda minha vida em um verso seria ter razão é tão perigoso que algumas pessoas preferem não ter nenhuma (Carlos Drummond de Andrade).
Se fosse uma poesia, seria Fernando Pessoa, em seu genial viver não é preciso.
É isso, amigos. Este faz parte de um raro momento confessional neste blog. 
Para terminá-lo, só mais algumas coisas que gostaria de falar:
Não sentir é estar morto.
Não amar é pecado.
Libertemo-nos de nós mesmos e só assim viveremos de verdade.
Tão livres que conseguiremos estar preso por vontade.
Ter medo de si mesmo é ser um barco no asfalto.
E viver é arriscar-se.

sábado, 18 de junho de 2011

Geração Vovó Mafalda

Vovó Mafalda foi um ícone que animou as manhãs de toda criança nascida na década de 1980. Me lembro muito bem do dia em que eu, com uns três ou quatro anos, assistia a sessão desenho e minha mãe disse a frase que cortaria meu pequeno coração ao meio: "meu filho, a vovó Mafalda é um homem vestido de mulher." Sem dúvidas, esta foi uma das maiores decepções que tive durante a minha infância.
Depois desse dia, nunca mais vi a velha com os mesmos olhos... ela era doce, mas não era mulher, era velha, mas não podia ser avó. Era na verdade um ser híbrido, que saía do meu pequeno sistema de classificação.
Pensando nisso, vejo que esta geração à qual tenho o desprazer de fazer parte, que passou a infância assistindo vovó Mafalda, também tem em si própria algumas características do que a velha se tornou para mim enfant. Somos híbridos, misturamos características que nos fazem os mais perversos seres que já pisaram em solo brasileiro:
Fomos à escola, mas não somos educados.
Temos muita informação, mas não somos bem informados.
Podemos votar, mas não somos democráticos.
Podemos protestar, mas só o fazemos ao contrário. (leia sofativismo ou revolta de papel)
Somos mais esclarecidos, mas vivemos uma atmosfera de intolerância.
Queremos igualdade. Queremos ser iguais os padrões que nos impõe.
Liberdade nada mais é do que poder fazer o que quiser, inconsequentemente.
Tudo que não gostamos é razão para ter ódio.
Tudo em que não acreditamos, chamamos de picaretagem.
Temos consciência, e poluímos como nunca.
Vivemos no século XXI e ainda maltratamos as mulheres.
Negros, velhos, deficientes, pobres ainda são considerados doença.
Consumir é o nosso objetivo de vida.
Criamos, alimentamos, treinamos, testamos e matamos marginais todo o tempo.
Não nos dói mais um corpo no chão...
Choramos com as grandes tragédias, nos esquecendo da grande catástrofe diária brasileira.
Enxergamos tudo perfeitamente, menos aquele menino que passa frio em frente a nossa casa.
Colocamos os caras em Brasília, para depois culpá-los de toda a nossa miséria...
Se pensar mais um pouco, conseguiria escrever muito mais. Mas estou cansado... não falo neste poste de uma "classe média", mas de toda esta minha geração. Tenho a mais profunda vergonha de ter nascido em 11/02/1987.

domingo, 5 de junho de 2011

Sofativismo ou Revolta de Papel

Era um dia de aula normal da FAFICH. Tenho o costume de sempre me deter em frente aos cartazes que ficam nas escadas. Normalmente tem algo interessante, um show, um cartaz de alguém que perdeu alguma coisa, enfim... desta feita, porém, algo me chamou a atenção: um cartaz com os dizeres "todo apoio à guerra popular na Índia, contra o Estado fascista indiano" entre outras coisas. Fico imaginando se uma pessoa, num nível elementar de pensamento crítico, pensa mesmo em apoiar uma guerra popular. Isto porque, inúmeros exemplos na história mostram que milhares de vidas são perdidas em conflitos assim, e que se a parte mais fraca ainda consegue a vitória, seu comandante se mostra, geralmente, ainda mais assassino que seu antecessor. A sede por poder e a sensação de onipotência tomam conta dos ditos revolucionários, que se voltam contra o povo que os apoiaram.
Fico imaginando também se a pessoa que apóia esta guerra popular, ou qualquer outra guerra, seria capaz de sair do conforto da sua caminha na zona sul para ir pegar em armas em qualquer desses lugares. Não, acho que não. Indianos, somalis, pessoas de Uganda. Peguem nas armas para mim. Matem-se. Assistirei todos os dias o Jornal Nacional. E apoiarei vocês em pensamento.
Esta profunda inversão da ordem lógica das coisas atinge boa parte da população jovem do país, e a internet é um dos locais mais privilegiados para a observarmos. Por exemplo: campanhas como "doe um fone de ouvido para um funkeiro" ou "contra o preço da gasolina" fazem muito sucesso na rede. Ninguém vai pra rua protestar contra a precariedade da educação no Brasil, que leva à falta de cidadania, que pode levar ao não respeito aos direitos alheios e aí sim à dita falta de noção dos funkeiros em incomodar a pobre classe média com seu gosto musical duvidoso.
O metrô de Belo Horizonte liga o nada a lugar nenhum sem passar pelo centro. De moto, gasto 20 minutos de casa até à FAFICH. De ônibus, pelo menos 1h40min. A passagem é caríssima, e a qualidade é péssima. Mas, a classe média quer andar sozinha no seu carro. E a gasolina está absurdamente cara. E agora? Não vamos nos manifestar pela melhora do transporte coletivo, até porque ele é coletivo, e assim engrossar o coro da maioria da população. O preço da gasolina é o maior problema. E por isso, faremos uma campanha no facebook.
Uma pessoa com a inteligência menos favorecida que ler este post certamente me chamará de reacionário, ou dizer que eu sou contra as manifestações democraticamente legítimas de uma parcela da população. E que pelo menos campanhas virtuais são algum movimento, enquanto eu, edinho, apenas aceito o que me é imposto sem fazer nada, e ainda criticando aqueles que tentam.
Responderia a esta pessoa que eu, edinho, poderia estar fazendo outras coisas da minha vida, ter escolhido outra profissão. O que me faz continuar sendo professor, e assim estar na linha de frente na verdadeira guerra pela qual o Brasil passa, é a sensação de sair de casa cedo por uma causa. Não estou na frente do meu computador esperando as coisas melhorarem.
Talvez andar sozinho no carro seja mais importante que salvar as próximas gerações brasileiras da mediocridade pela qual a minha geração passa. Mas essa é minha guerra. E a batalha é diária, e começa com cada sinal, às 7:00.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A odiosa propaganda dos chinelos Havaianas

Manolos, voltei.
Odeio a maioria das propagandas que passa na televisão, sobretudo as de cerveja. Porém, esta das havaianas me chamou a atenção por um motivo especial: em menos de um minuto, a francesa (que tem cara de turco) diz um monte de elementos que compõe o mito de nossa brasilidade: belezas naturais, um povo alegre, e talz...
Será que alguém, em sã consciência, ainda acredita que o Brasil é isso tudo assim, sem conflitos raciais, sociais... alguém acredita que somos um povo rico? que o que nos falta é um pouquinho de europeísmo nas atitudes?
Não sei. Mas em uma coisa a  propaganda está certa: o Brasil tem as melhores bundas do mundo, e isso atrai milhares de turistas afim de barbarizar geral abaixo do E-qu-ador. O Brasil é um paraíso para doentes desse tipo, e a francesinha não quis pagar pra ver. eu também preferiria "Vinizzi".
Enfim, acho que a melhor propaganda da situação do Brasil foi feita pelo finado Alborghetti, ícone da extrema direita do Paraná.
"Isso é coisa do Satanás"! Mesmo.

domingo, 17 de abril de 2011

Lições sem Braço




Quatro semanas sem poder usar direito a mão esquerda... apesar de ser a sexta fratura da minha vida, foi a primeira que eu parei para refletir sobre as lições deste período. Algumas delas:
1 - A incrível capacidade de jogar fora o que as pessoas oferecem de melhor:
Sempre é insuficiente ou excessivo o que recebemos ou oferecemos. E não temos paciência ou amor que basta.
2 - Só se conhece a cidade andando de balaio:
Mas não o 5102, zona sul/elite intelectual. Falo de 3850, citrolândia/centro ou do 4195 São Benedito/Cidade Industrial.
3 - Falta de solidariedade geral:
Não estava morrendo, ou com uma perna engessada. Só era mais difícil me equilibrar no vai-e-vem do ônibus, sem poder me segurar com as duas mãos. Vi gente jovem disputando lugar na frente de uma senhora que com certeza deveria ter preferência. Gente com uniforme de escola sentado enquanto pessoas que com certeza já passaram dos 50 em pé... profundamente lamentável.
4 - Ambiente de hospital:
Terrível, pra qualquer um que tenha o mínimo de sensibilidade. Eu tive a sorte de ser atendido num ótimo hospital, mesmo assim vi muita coisa que não gostaria.
5 - Tarefas domésticas:
Lavar a louça, varrer a casa, não é lá muito bom. Mas ter a possibilidade de fazer isso, todos os dias, é uma grande benção.

6 - Dependência:
Já briguei com minha mãe para ela começar a dirigir e deixar de depender de outras pessoas para andar de carro. "A senhora tem carteira e carro", dizia eu. Durante essas semanas eu tinha carteira, carro, moto e andava de ônibus. Se quisesse andar de carro tinha que pedir minha mãe (que passou a dirigir) ou a Ana. Lição.
Aliás, minha mãe e a Ana que me ajudavam a tomar banho, amarrar o calçado, tirar ou vestir camisa, abotoar a calça, entre outras tarefas que de simples não tem nada.
7 - Bola, conforto, sono...
Difícil ficar sem jogar bola. O médico disse que só poderei voltar a jogar depois da fisioterapia e de um retorno em seu consultório. Imagino que será mais três semanas, pelo menos.
Extremamente desconfortável ficar com o gesso, o que afetava meu sono também. Claro, não dormia bem...
Tem outras lições, mas nem lembro agora. Ficar sem escrever aqui também foi ruim. Dificilmente alcançarei a meta de 2011, mas enfim, mesmo sabendo que milhares de leitores (não) mandarão e-mails xingando, esta é a realidade.
Penso que a primeira lição eu aprenderia, com ou sem braço.

quarta-feira, 16 de março de 2011

O Haiti é Aqui II

Não, a imagem não é do Japão depois do tsunami. Nem do Haiti. Nem das avalanches de terra, na região serrana do Rio de Janeiro. A foto é da região do bairro Betânia, em Belo Horizonte, depois de mais uma enchente do Arrudas.
Grandes tragédias, com milhares de mortos, sempre causam sentimentos como a pena, a consternação, a vontade de ajudar... pelo menos é o que eu penso que deve acontecer com pessoas minimamente normais.
Porém, estas grandes tragédias acabam por encobrir o que acontece diariamente, e que insistimos em considerar ser normal: um assassinato, um atropelamento, as enchentes do arrudas, crianças sem educação ou sem comida, os mortos nas portas dos hospitais, entre outros. Estas tragédias deveriam, por serem bem mais frequentes, despertar em nós pelo menos a indignação. Mas, insistimos serem fatos naturais, quase como comer ou dormir.
A reportagem do Jornal Hoje, de hoje, ilustra uma parte do que eu quero dizer. Nela, um repórter brasileiro, há quinze anos no Japão, se espanta ao ver duas meninas revirando os escombros das casas à procura de algo para comer. Depois aparece um outro brasileiro, há 20 anos no Japão, bastante emocionado, dizendo "nunca imaginei que veria crianças japonesas revirando o lixo procurando comida". 
A fome é uma tragédia, no Japão, no Irã, na Somália ou na lua. Respondam a si mesmos: quem nunca viu, no centro de Belo Horizonte, uma criança procurando alguma coisa de comer, ou pedindo alguma esmola dizendo querer se alimentar? Quem de nós chorou por isso?

Milhares de brasileiros morrem de fome por ano. Mereciam um tsunami de lágrimas.


Não sei por quanto tempo a reportagem vai ficar disponível, mas é a primeira do jornal hoje do dia 16/3/11. http://g1.globo.com/jornal-hoje/